{TC} - Express Yourself.

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{TC} - Express Yourself.

Mensagem por Convidado em Sab 15 Ago 2015 - 22:26


Second Theater Class

É nas aulas de teatro que se aprende o necessário e o que é preciso para se tornar um bom ator ou atriz. Teatro não é apenas leitura de monólogos ou apresentação de peças; é todo o trabalho que envolve conhecer a si mesmo antes de representar um outro alguém. Controle de voz, expressão corporal e conhecimento de todos os sentidos que envolve ser ator. Nas seguintes aulas vocês aprenderá como controlar seu corpo das devidas maneiras para se sair nada menos que perfeito em cima de um palco. As aulas acontecem no primeiro andar do prédio do Newtt, na sala um.

Apenas atores estão autorizados a postarem aqui, salvo àqueles alunos que tem como segunda opção o curso de teatro. Interessados a participarem desta aula devem encaminhar uma MP a Shannon Kempner antes de postarem suas devidas respostas. 

Vocês terão um prazo de 15 (quinze) dias para responderem a seguinte aula. A RP ficará aberta até dia 30/08/2015




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Re: {TC} - Express Yourself.

Mensagem por Convidado em Sab 15 Ago 2015 - 22:54

Express Yourself
Tudo havia sido rápido demais: o diretor havia me ligado, no meio do sábado, implorando para que eu voltasse correndo para Miami para, nas palavras dele, dar qualquer exercício de teatro que fosse válido. O professor havia tido problemas com sua família em New York e não poderia voltar até quarta, e deixar os alunos “na mão” estava fora de cogitação. Como não escolheriam outro monitor tão cedo, a única alternativa fora me ligar e pedir para que eu voltasse, pelo menos por um dia, para não deixar as aulas desfalcadas. Prague estava sendo incrível. Tinha exatos quatro dias que eu estava na cidade europeia, estudando algo que eu definitivamente queria para minha vida. Eu estava, sim, com saudades de Miami e de todo aquele clima quente; estava com saudade do cheiro salgado do ar; estava com saudade de Dianna e com saudades dos meus amigos. Mas eu sabia que, no final, tudo valeria a pena. Retornando: liguei para meu pai, que estava em Londres, e pedi o – grande – favor de me emprestar o jatinho por três dias. Tempo o suficiente para eu ir à cidade americana, lecionar a aula, matar um pouquinho a saudade de minha namorada, pegar uns papéis que faltaram e retornar para Prague. O velho aceitou com um pouco de hesitação, alegando que eu conseguia ser mais complicada que minha mãe no quesito responsabilidades. 

Eu estava cansada. Minhas costas doíam e eu sentia um sono descomunal para uma segunda feira. Eu não conseguia dormir direito em voos e ficar doze horas naquele fora uma tortura. Havia passado em casa apenas para tomar banho e colocar uma roupa mais leve, deixando-me disposta para o longo dia que viria pela frente. Eu não havia avisado ninguém, com exceção do diretor, que eu havia chegado a Miami. Mordia o lábio inferior ansiosamente por todo o caminho até o Newtt, pensando o que eu faria com todos eles naquele dia. O sorriso bobo brotou em meus lábios ao pensar que veria Dianna, justamente no momento que Lean On estourou nas caixas de som do Land Rover prateado. Certo que não havia passado nem uma semana e que eu ligava para a garota todos os dias e que mandava mensagens sempre que possível, mas não era a mesma coisa. Era como ficar longe de uma parte de mim. Dobrei para a direita, adentrando o estacionamento do colégio.

▽△▽

- Eu quero que vocês relaxem. – Foi a primeira coisa que disse ao fechar a porta pesada de mogno que separava minha sala do resto do colégio. Estava dois minutos atrasada, mas não me desculpei por isso. Eu tive meus motivos para tal coisa. O silêncio se fez presente imediatamente, fazendo-me suspirar ao passar os olhos pelos alunos que ali estavam. Meu  sangue corria rápido pelas veias, me lembrando de que ainda estava com raiva. Silêncio era algo que eu realmente prezava para concentração, e eu precisava me concentrar naquele momento. Ou acabaria descontando o que sentia em todos ali.  A sala era grande – não tanto quando a de dança -, espaçosa e um tanto quanto convidativa. As paredes eram claras, o chão de madeira, escuro, lustrado e a única luz que encobria o lugar, naquele momento, vinha dos basculantes estreitos no topo de uma das paredes. Os ventiladores estavam ligados, dando um clima fresco perfeito para se estar ali. Caminhei a passos lentos até o tablado na frente de todos, passando, no caminho, por entre as pessoas sentadas em pufes grandes e aconchegantes que estavam presentes na aula. Puxei o canto dos lábios para cima, em um sorriso um pouco forçado (mas que pareceria verdadeiro àqueles que não tinham uma convivência pessoal comigo). – Eu sei que pedir pra relaxar numa segunda-feira, às oito e vinte da manhã, num pufe mais confortável que o sofá da sua casa, é a mesma coisa que falar “pode dormir até o sinal bater”. Mas não, não serei tão legal assim. – Comentei tentando usar um tom descontraído, andando até a pequena mesa no canto do palco e pegando o controle que comandava a aparelhagem de som. – Farei um pequeno desafio a vocês essa manhã, fato que permitirá cada um conhecer o outro de uma forma... Diferente.  – Conectei os olhos azuis em cada um, como se fosse para reforçar o que era dito. As frases saiam limpas, pontuadas e com extrema segurança, mascarando o turbilhão de imagens, pensamentos e sentimentos que corriam dentro de mim.  – Eu irei explicando o que fazer ao transcorrer da aula. Por agora, fechem os olhos e aproveitem para pensar sobre você, o que fez e tem feito em sua vida.  Tente alcançar o princípio do seu nirvana nos vinte minutos que irei lhes proporcionar, sim? - Dito isso, apertei o botão play do controle, resultando nos primeiros acordes do piano, em som ambiente, de Crazy in Love. Estapeei-me mentalmente: logo essa música?  

Os minutos haviam se passado e eu podia jurar que algumas pessoas estavam entrando num estado de sono. Neguei com a cabeça, prendendo a vontade de reclamar com eles. É claro que eles tentariam dormir... Eu mesma tentaria caso estivesse em minha completa sanidade.  Apoiei-me na beirada do tablado, impulsionando o corpo para frente para conseguir me levantar. Pigarreei, chamando a atenção de todos. – Permaneçam com os olhos fechados, por favor. Se concentrem apenas em minha voz. – Instrui a alguns que haviam aberto os olhos. Diminui o volume do som, de forma com que não tivesse que elevar tanto a voz para ser escutada por eles. - Nenhum verdadeiro artista, quando atua, imita algo ou alguém. Isso se define como sendo algo... – Pausei alguns segundos para encontrar a palavra correta. - Rude por parte de quem assiste e de quem é ator por mais tempo. – Comentei andando entre os adolescentes que jurava estar relaxados. Meus passos eram calculados para não fazer nenhum tipo de barulho e tirá-los daquele estado. - O verdadeiro ator se entrega de corpo e alma, mesmo que, para isso, ele precise imaginar uma realidade paralela a sua. – Estaquei os passos quando me vi próxima a Dianna, inclinando o rosto para o lado ao lembrar-me de imagens que havia visto há pouco. A seu lado tinha uma menina, loura como eu, também de olhos fechados. Observei seus traços, achando-os incrivelmente parecidos com a garota das fotos. Travei o maxilar, forçando o corpo para frente, para continuar meu caminho, e camuflando todas as minhas vontades do momento. Parei atrás da turma, amaciando a voz para dizer o que viria a seguir.  - Mas às vezes será necessário viver algo fictício que se parece absurdamente com sua realidade. – Sorri de canto, mesmo sabendo que ninguém poderia me ver, de forma triste. – Abram os olhos. – Sussurrei, esperando alguns segundos para seguir com a aula e os alunos avistarem o que havia no palco. No tablado havia um banco alto, com um foco de luz sob ele. 

Pensem no ator como sendo uma caixa. – Disse voltando a caminhar para frente da sala, tornando a subir no palco. – Quanto mais cheia, menos objetos poderão ser colocados dentro dela. – Me sentei no banco, tomando uma leve respiração. – Tente ver você como a caixa e os objetos como os sentimentos. – Comecei a explicar a ligação, de forma calma, gesticulando minimamente com ambas as mãos. – A partir de agora você será obrigado a ter dois tipos de sentimentos: os seus e os de um personagem do qual passará a existir. Bem, isso se você quiser ser um excelente ator. – Mordi o canto do lábio inferior, organizando as ideias que se passavam em minha mente. Aprumei a postura, ficando ereta no assento. - Então, embora seja um pouco difícil, eu quero que vocês, hoje, se esvaziem um pouco para, na próxima aula, começarem a encher-se de novas emoções. Diga algo de sua realidade que te incomodaria passar na ficção; algo que te faça ficar com a cabeça tão cheia que você transbordaria caso recebesse mais uma dose de sentimentos. Mesmo estes não sendo seus. – Finalizei, mantendo contato visual com alguns dos presentes. Demorei um pouco mais nos castanhos de minha namorada, tentando retirar algumas informações, de forma muda, dali. Aguardei mais um pouco, deixando o silêncio prevalecer no ambiente.

Eu sabia que a maioria ainda estava digerindo tudo que eu havia falado, mas não tínhamos tanto tempo assim para a aula. Limpei a voz. – Já que ninguém se atreveu a vir aqui na frente, serei a primeira. Acho que não seria justo com vocês se eu não disser sobre mim, também. Vocês têm esse direito. – Encolhi os ombros, abrindo o peito para receber uma quantidade maior de oxigênio. - Minha mãe tinha problemas com bebidas quando eu era mais nova. – Comecei, grudando os olhos na madeira do palco e engolindo a saliva excessiva que havia sido formada em minha boca. Aquele assunto – minha mãe - era meu calcanhar de Aquiles até os dias atuais. – Mas esse não era o maior dos problemas. Ela nunca foi presente em minha vida, não tanto quanto meu pai, e, quando aparecia, fazia da minha existência um inferno. – Parei de falar um pouco, erguendo o rosto para encarar as faces atentas. – Ela me chama de “adotada”. - Sorri sem humor algum, sem mostrar os dentes. – Isso não me afeta, não mais, mas é... Estranho o sentimento que tenho sobre isso. Quero dizer, é um pouco ruim o fato de sua mãe não se reconhecer, o mínimo que for, em você. – Pisquei os olhos, pensando mais sobre fatos que me faziam ter certas dificuldades em estar sob o palco. Eu fazia muito aquele tipo de exercício nas aulas de teatro avançado, então não sabia mais, exatamente, o que me impedia de viver intensamente a história de uma personagem. – Uma noite ela chegou embriagada em casa, ainda morávamos em Amsterdã e, por azar meu, deu de cara com meu diário aberto em cima da cama enquanto eu tomava meu banho. Ela leu algumas páginas e descobriu que eu não era a filha perfeita que pensava que eu era. Uma das “princesinhas” dela – Abri um sorriso irônico ao falar princesinhas, passado a mão na franja que escapara do rabo de cavalo que eu usava e ajeitando-a, novamente, para trás da orelha. – Tinha um interesse anormal em uma garota que havia conhecido em uma das viagens que fazia com seu pai. Em vez de esperar eu sair de debaixo do chuveiro e conversar como uma mãe normal, ela simplesmente invadiu o banheiro e me bateu. Com a mangueirinha do chuveiro. – Prendi a respiração, as lembranças daquele dia invadindo a cabeça e tomando todos os meus sentidos. Soltei o ar aos poucos, controlando tudo que sentia. Encarei Dianna, sorrindo de forma triste. Eu nunca havia contado aquilo a ela. – Ela nunca foi uma pessoa muito tolerante com homossexuais e eu descobri isso do jeito mais doloroso possível. – Me levantei do banquinho, erguendo alguns centímetros a blusa que usava e mostrando uma fina cicatriz um pouco abaixo da minha cintura, no lado direito. – Mas no final deu tudo certo. Com o passar do tempo ela se acostumou com a ideia e aceitou o fato de eu amar outra menina do jeito que eu deveria amar um menino. Hoje em dia temos um relacionamento... Bom, acho. Ela no espaço dela e eu no meu. – Passei a mão pelo cabelo, me sentindo um pouco incomodada pela forma que eu havia dito tudo aquilo. – A primeira peça que apresentei, profissionalmente falando, foi com um tema parecido. Foi uma situação desagradável passar por aquilo sem que meus colegas de elenco soubessem de toda essa história. – Desci do tablado, andando, novamente, por entre os alunos. – Por isso proponho que contem a todos aqui, que serão seus colegas de elenco, o fato marcante de sua vida. Assim eles saberão que tem algo errado com você quando pegarmos peças para estudarmos e, consequentemente, apresentarmos. Posso te garantir que ficarão muito mais a vontade para representar sabendo que todos sabem de sua condição para com a história. – Ditei o ultimo ponto final atrás da turma, me jogando em um pufe vago. – Quem será o próximo?

Todas as pessoas que frequentavam a aula de teatro haviam subido ao tablado e contado um fato de sua vida. Algumas histórias eram intensas demais, outras nem tanto. Estava um clima um pouco tenso no ambiente, mas eu sabia que aquilo melhoria com o passar do tempo; eles tinham acabado de sair da zona de conforto, afinal. Ergui-me do pufe, caminhando até a mesa que ficava no fundo da sala e juntando alguns materiais que estavam depostos sobre ela. O sino bateu, fazendo alguns saírem quase correndo da sala. – Fique um pouco mais, Ohlweiler. – Disse ainda de costas, respirando fundo e tentando me acalmar. – Preciso conversar com você. – Girei no calcanhar, encarando a figura esguia da menina a poucos metros de mim com uma expressão séria.
#weird | theater class | outfit: here ©



Obs: a música que foi mencionada/ tocada no post, estando na aula, é a seguinte: 
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Re: {TC} - Express Yourself.

Mensagem por Rebel Ivy-Lenöir Bordeaux em Dom 16 Ago 2015 - 18:17






O sol começava a entrar pelo feixe da cortina, iluminando o quarto que até agora estava extremamente confortável. A temperatura era amena graças ao ar condicionado e minha cama parecia mais confortável que nunca. O meu corpo se recusava a levantar, mas hoje era meu primeiro dia de aula e eu precisava me preparar.  Levantei-me e me dirigi para frente do espelho grande que eu tinha no meu closet. Parei ali após pegar uma escova e comecei a arrumar o cabelo, enquanto observava meu reflexo.  Meu rosto não estava inchado, visto que eu tinha tido uma ótima noite de sono, então apenas deixei meus cabelos soltos e peguei um rímel e blush, dando ao meu rosto ar saudável. Já havia separado uma roupa, que vesti rapidamente, ficando o mais casual possível. A bolsa estava em cima da cômoda, peguei ela rapidamente e sai do quarto, indo em direção a cozinha.

Nem sinal do meu pai em casa. Ele deixava bilhetes dizendo que a inauguração da filial aqui em Miami estava tomando o tempo dele, mas eu sabia que ele apenas não queria passar tempo comigo. Abri a geladeira procurando por algo para beber e peguei um suco de laranja, despejando em um copo e logo guardando a caixa novamente. A cozinha era o primeiro cômodo pronto da casa, tirando o quarto do meu pai, que ele tinha insistido em ajeitar ele mesmo. Fui comendo algumas torradas e observando o trabalho que eu e o decorador havíamos conseguido completar nesses cinco dias. Os armários haviam sido todos trocados por novos embutidos, que eram lisos e deixavam a cozinha mais leve. Todas as bancadas agora tinham mármore branco e as luzes foram melhores distribuídas, deixando o ambiente mais agradável. Olhei o relógio e percebi que logo estaria atrasada, deixando o café pela metade. Peguei a chave do G-Wagon e sai de casa. Antes de sair percebi dois homens parados perto do portão. Eram Marco e John, os dois seguranças contratados pelo papai, me lembrava dele ter avisado por bilhete. John pulou rapidamente no seu carro enquanto eu saia com o meu, me seguindo. Eu não me importei, mesmo que só estivesse indo para o colégio. Sai da garagem, indo em direção a Newtt para o meu primeiro dia.


● ● ●


Já havia estacionado e entrado no colégio. Procurei informações para saber em que sala deveria ir e agora estava a caminho. As pessoas conversavam animadamente, muito diferente do internado do qual eu vinha. Recebi alguns olhares talvez por ser a menina nova, mas ignorei, logo encontrando a sala da aula de teatro. A sala era aconchegante e eu logo avistei Dianna, soltando um sorriso animado. Caminhei em sua direção enquanto observava os outros que já haviam chegado ali, me perguntando se logo conheceria todos por ali. Sentei-me ao lado da Dianna, dando um rápido beijo na sua bochecha e tirando os óculos escuros dos olhos, deixando-os descansando na minha cabeça.

— Bom dia! Não sabia que você fazia aula de teatro também.. — falei, me lembrando que ela havia comentado sobre ensinar dança no colégio. — Mas ainda bem que você está aqui, estava um pouco nervosa. — soltei uma risada nervosa, olhando em volta.

Uma loira logo entrou na sala, se encaminhando até a frente da sala. Deduzi que seria ela que daria a aula e me virei em sua direção, prestando atenção em suas palavras. Ela parecia ser nova, da nossa idade até. Olhei rapidamente para Dianna e lembrei que alunos também davam aulas por aqui, logo ela poderia ser uma também. Fechei meus olhos ao seu comando, com a ideia de relaxar, um desafio dado por ela. Crazy in Love começou a tocar, sem a batida normal da versão em que Beyonce cantava, apenas um piano tocando a música calmamente. Um tempo passou e eu não podia ter deixado de ficar um pouco sonolenta. Mas havia funcionado e agora eu estava totalmente relaxada. A aula continuou de olhos fechados, enquanto ela explicava o seu ponto antes de nos mandar abrir os olhos novamente. O palco que ficava na frente da sala agora tinha um banco no meio dele, com uma luz direta ali em cima. A loira que havia ido até o final da sala, voltou e sentou-se nesse banco.

A tarefa da aula era contar algo que te deixasse inconfortável, algo que te incomodasse caso você tivesse que atuar sobre. Memórias voavam dentro da minha cabeça, minha mãe, meu irmão. Mordi o lábio fortemente, fazendo um corte pequeno, sentindo o gosto do sangue na minha boca. Só o pensamento me perturbava, me deixava fora de mim. Tentei tirar aquelas memórias da minha cabeça enquanto ouvia a história que a loira contava sobre o que mais a incomodava. Eu não poderia imaginar ter uma mãe que ela descrevia. Minha mãe era amorosa, preocupada, calma... Pena que ela não estava mais aqui. Era possível ver o quanto a loira se sentia desconfortável em contar aquela história, mas ela passou por aquilo e logo desceu do banco, saindo do palco.

Agora era a hora dos alunos subirem no palco e contarem suas histórias. Meu coração já batia num ritmo fora do normal, pensando em o que eu falaria ali em cima. As pessoas começaram a subir e contar suas histórias, algumas eram tocantes e outras nem tanto, mas todos falavam a sua verdade e eu não poderia subir ali e simplesmente mentir. No internato, eu nunca tinha tido um aula de teatro ou algo parecido, nunca haviam pedido para eu falar da minha vida, então foi fácil apenas esconder isso. Apenas esquecer.  Sequei minha mão que suava na calça, sentindo meus dedos tremerem durante meus movimentos. Um garoto desceu do palco e eu me levantei, decidindo que ou eu contaria logo aquela história ou eu simplesmente desistiria e sairia correndo daquela aula. Minhas pernas pesavam tanto a cada passo que eu dava em direção ao banco, me fazendo respirar cada vez mais fundo, numa tentativa de me acalmar. Sentei-me, cruzei minhas pernas e deixei minhas mãos descansando em cima das minhas pernas. Era agora ou era nunca.

— Oi... Meu nome é Rebel! Eu nunca falo muito sobre mim mesma, eu simplesmente não gosto... — falei olhando em direção a sala. A luz em minha direção era incomoda, fazendo com que eu piscasse mais que o necessário. — Quando criança, eu fui muito feliz. Eu viajei e conheci muitos lugares. Eu tinha uma família feliz, uma mãe amorosa, um pai dedicado e um irmão lindo. Era tudo até muito perfeito para ser verdade, se eu for pensar nisso agora. — soltei uma risada seca, sem muito humor. — Tudo foi perfeito até que eu completei 10 anos. Eu me lembro que nevava e minha mãe não queria ficar em casa, ela queria viajar, sair conosco. Meu pai estava no trabalho, então ela botou eu e meu irmão no carro e decidiu que nos levaria e depois o meu pai nos encontraria lá. Ela estava nos levando para Hamptons, ela amava o Hamptons. Nossas melhores memórias estavam lá, as melhores férias foram passadas lá. — parei por um minuto, engolindo a bola que havia se formado na minha garganta. — Estava tudo bem, minha mãe estava dirigindo, eu e meu irmão estávamos quietos no banco de trás. Eu me lembro até hoje da música que tocava no carro, um solo de violão suave. Era o tipo de música que minha mãe gostava. — meus pés balançavam sem parar, o nervosismo tomando conta de mim. — O carro estava indo devagar porque estava nevando e minha mãe era cuidadosa. Meu irmão havia dormido, então eu pensei em dormir também. A viagem passaria mais rápido. O rosto dele é a ultima coisa de qual eu me lembro. — uma lágrima solitária caiu do meu olho esquerdo,  enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas conforme eu me lembrava do meu irmão, de olhos fechados e o rosto virado na minha direção. Aquela ultima vez em que eu o havia visto.  — Um carro desgovernado  acertou o nosso. A batida foi do lado deles do carro, então os dois morreram na hora. Nada demais aconteceu comigo. Depois desse acidente, toda minha vida mudou. Tudo piorou, por assim dizer. — a culpa, a relação com meu pai, a vida em si. Tudo havia piorado, e parecia que não havia solução para nada. — Mas eu não me importo que tenha piorado. Eu estou aqui e eles não. Não importa o quanto esteja ruim para mim, está pior para eles. — levei uma mão aos olhos, afastando as lágrimas. Era bom desabafar aquilo tudo que sempre havia ficado guardado. Um peso parecia ser tirado dos meus ombros. — Eu nunca tinha falado sobre isso antes, então desculpe se foi meio cruo. Obrigada.

Desci do banco, caminhando lentamente para fora do palco. Tentava não olhar para as pessoas, não querendo ver a reação delas ao que eu havia acabado de compartilhar. Sentei-me de novo ao lado da Dianna, esperando o fim da aula. Não estava mais tão relaxada e o assunto tão pesado havia feito com que uma dor de cabeça começasse a me incomodar. A aula finalmente terminou e eu pensei em chamar Dianna para sair, mas a loira pediu que ela ficasse. Apenas acenei para ela e sai da sala. A aula havia sido difícil e eu queria apenas ir para casa descansar.



are u alone?
is it too late to talk?
● do I wait to long? ●

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High By the Beach

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Re: {TC} - Express Yourself.

Mensagem por Dianna E. Voss-Ohlweiler em Dom 16 Ago 2015 - 21:47


Cold as ice
A aula de dança havia sido cansativa. Dentre outras palavras, a dificuldade de pegar passos e transformá-los em arte, estava em um nível absurdo. Agora entendia o por que das discussões do professor Lawson com Yris, sobre os alunos estarem desatentos de mais, o que acabou lhe desestimulando para vir lecionar nesta semana. E, como era a monitora, sobrara para mim. Havia passado apenas alguns exercícios, visto que muitos não estavam nem aparecendo. O ano estava começando a ficar corrido, principalmente para os formandos. Por ser uma escola voltada para as artes, o quesito relaxamento era elevado, o que acabava terminando em reprovações frequentes. Dirigi o olhar para o relógio de parede em um tamanho exagerado, vendo que precisava me apressar um pouco para não me atrasar para a aula extra, na ala de teatro. Deixei minha bolsa ali mesmo, dentro do pequeno escritório ao final da sala. Aproveitei para tomar um rápido banho, vestindo uma calça jeans com pequenas linhas em rasgos na perna, e outra camisa do uniforme vermelho e branco com o símbolo da Newtt. Sai dali, trancando a porta e pondo a chave no bolso. Me encaminhei para a sala onde teria a aula, entrando e ocupando um lugar em um dos pufes espalhados por lá.

Alguém estava cutucando meu ombro, e quando me virei para ver quem era, me deparo com uma Ashley um tanto que descabelada. Olhei-lhe sugestivamente, me levantando para trocarmos um abraço ligeiro. Ela não precisava dizer nada para que eu soubesse de seu momento de pegação com Jeff. Teria uma conversinha com ele, para lhe dar um toque. Ashley realmente gostava dele. Fui tirada de meus devaneios com um beijo na bochecha. Meus olhos encontraram os azulados contagiantes de Rebel. Lhe dirigi um largo sorriso.

Hey, você. — toquei seu queixo. — Ah, eu pretendo fazer o papel do Tigrão no próximo filme da Disney. Sou uma grande fã da turma do Pooh. — disse-lhe, fazendo minha melhor expressão séria, apesar do tom de brincadeira.

Observei-a melhor, vendo que não usava tanta maquiagem, diferente de algumas garotas dali, que pareciam um cosplay idêntico do palhaço de American Horror Story.

Não fique nervosa, isso costuma atrapalhar bastante. Aja naturalmente e vai se dar muito bem, aqui. — pisquei para ela, voltando minha atenção para algumas pessoas ao redor.

Um barulho de conversa paralela orbitava a sala. O relógio indicava que dois minutos já haviam se passado, e o professor ainda não tinha chego. Um pequeno sorriso se formou em meus lábios, não podendo evitar a pensar em Shannon. Ela nunca chegava atrasada para dar a aula.



Ω


"Eu quero que vocês relaxem." A voz sondou minha mente, como um fantasma atormenta uma criança. Será que estava sentindo tanto a sua falta, que agora ouviria o som de sua voz? Estava certa de que o professor de teatro daria a aula hoje. Obriguei-me a erguer o olhar, afastando-o de Rebel, que estava ao meu lado. Shannon estava ali. Meu peito desencadeou um sentimento único de alegria. Ela estava ali! Mas, um pensamento me atingira. Por que ela não me avisou que vinha? Poderia ter ido lhe esperar no aeroporto. Em poucos segundos, minha mente encheu-se com perguntas, constatações de fatos e coisas que causariam um mártir indesejado no momento. Respirei fundo, prevalecendo o lado ético, visto que estávamos em sala de aula, e ela estava prestes a dar a lição do dia. Teria de resolver isso depois. Só esperava que ela não viesse com um "eu preciso voltar agora, vim só para a aula. Depois conversaremos" ou a coisa ficaria feia.

Primeiro, ao notar o sorriso que ela dava, tive certeza de que estava forçando o gesto. Shannon não era de fingir um sorriso, e quando sorria, não era daquela forma. Algo estava lhe incomodando. Mantive os olhos focados nela, que começava a desfiar o teor de sua aula. Relaxar era o foco inicial, e ao saber, fiquei um tanto que preocupada. Não com ter de relaxar, mas em como ela pediria para fazermos. Ao seu comando, fechei meus olhos. E como desconfiava, uma música suave preencheu a sala. Crazy in love? Isso é sério? Por um momento, achava que ouviria a voz de Beyoncé ou de qualquer outro cantor ou cantora que pudesse tornar a música intensa, assim como em Fifty Shades Of Grey, o que não aconteceu. Continuou suave, e como não era possível evitar no meu caso, já estava beirando a inconsciência, o primeiro estágio do estado de sonolência. Senti meu próprio corpo pender para um lado, acordando de súbito com a voz de Shannon pedindo para que ficássemos ainda de olhos fechados, ouvindo apenas o som de sua voz, com a música em um volume ambiente, agora. Continuava a ouvi-la falar, forçando-me a ter toda a concentração que poderia, no momento. Autorizada a abrir os olhos novamente, senti um pequeno incômodo, com a claridade. Então, todo o sono que eu havia adquirido, foi perdido completamente, com o propósito final. Soltei uma respiração aguda, o pensamento pesando mais do que deveria. Só havia uma coisa que, até os dias de hoje costumava tirar o meu sono, e eu teria de contar.  

Para não ser injusta, Shannon também contaria um momento seu. Ela começou a falar, tão desconfortável quanto o restante das pessoas dentro daquela sala. Parecíamos estar agora, em um mundo paralelo, separados de todo o restante. Não se passava por minha mente que ela teria qualquer problema sério de mais, não pelo menos referente a algum membro de sua família, já que havia conhecido os Gould-Kempner semanas atrás. Mas, lá estava ela, contando sobre sua mãe. Millie tinha sido a que menos simpatizara comigo, apesar de estar sorrindo em alguns momentos, notava que era um movimento forçado e sem um pingo de expressão. O mesmo sorriso que Shannon estava dando agora, ao mencionar que sua mãe tinha descoberto que não tinha uma filha perfeita. Minha sobrancelha se arqueou, enquanto corrigia minha postura. O que ela queria dizer com aquilo?

Então, foi como se um alguém tivesse me dado uma chicotada na face. As lágrimas foram automáticas, assim como o movimento feito com as mãos, fechando-as em punho. Minhas unhas cravaram-se nas palmas, e a ardência foi imediata. Se estava doendo por ter cortado? Não sentia. Estava sentindo uma dormência incomum. Não só na palma da mão, mas também, por todo o corpo. Principalmente na cabeça. E a cada nova palavra dita, era uma nova chicotada. Havia parado de respirar, perdido o sentido de cada órgão de meu corpo. Tudo havia desmoronado. A cicatriz, aquela cicatriz a qual sabia dizer onde estava até de olhos fechados. A cicatriz que carregava a perfeição dela, agora, era o ponto de seu corpo que sempre me lembraria o que eu era para Shannon. Uma ferida. Fechei os olhos, impedindo que mais lágrimas caíssem, apesar de já estar com o rosto praticamente banhado por elas. O enxugara, sentindo algo subir por minhas veias. Algo que a muito eu não sentia, e esperava não sentir nem tão cedo. Ao subir o olhar, encontrara as íris tristonhas de minha namorada. Ela nunca havia me dito aquilo. Meu maxilar travou, e um com uma respiração profunda, deixei, pela primeira vez, que a parte de mim que eu tanto temia, extravasasse através daquela troca de olhares. A muralha de gelo estava erguida.

Tomando controle de tudo de volta, controlei os pensamentos. Eram tantas coisas para processar. Todas, eram espinhos fincados em cada canto do meu corpo. E eu não sentia nada. Absolutamente nada. Eu conseguiria tocá-la, sem ouvir sua própria voz repetir o que ela havia acabado de dizer? Eu conseguiria pelo menos olhá-la da forma que merecia? Este, era apenas mais um demônio sendo acrescentado a minha cota. O pensamento primordial, era apenas, o de que iria me afastar. Nunca mais permitiria me encontrar com ela. Não permitiria qualquer tipo de dor em sua vida. Mas, o egoísmo se sobrepõe em meu inconsciente. E você conseguiria viver não estando ao seu lado? Outras pessoas subiram ao palco, inclusive Rebel. Como imaginava, ela teria uma história trágica referente ao que havia dito no dia em que saímos juntas. Assim que ela voltara a estar ao meu lado, toquei sua mão, em um gesto de reconforto, apesar de estar com uma expressão tão amarga e vazia, que achava difícil que a loira pudesse me compreender. Me ergui, não sabendo como conseguia estar de pé. Percorri o caminho até o tablado em silêncio, sentando-me no banco. Por vários minutos a finco, mantive-me calada.

Meu avô morreu em meio a uma guerra. Ele era o meu herói. Desde que nasci, era com ele que eu me identificava. Se tinha um problema e precisava de ajuda, ou, quando queria compartilhar alguma alegria qualquer de criança, não existia outro alguém para eu correr. Meus pais nunca foram presentes, então junto com minhas irmãs, era a única família que me restava a ter. — ao contrário de todo mundo, não abri nenhum sorriso, mesmo que vazio ou irônico. Não haviam motivos para sorrir. — Não quis saber o que causou a morte dele. Se foi em campo de batalha, se contraiu alguma doença e foi sucumbindo durante o tempo. Isso não importa. Ele se foi, e levou junto toda a felicidade que eu tinha. Vocês fazem ideia do que é amar tão intensamente, que não imagina que esse amor poderia perder as forças, ou ser destruído de alguma forma? Até mesmo, simplesmente se perder?

Respirei fundo. Não sentia vontade de chorar. Continuava a não sentir nada. Desci o pé do banco, apoiando no chão. Meu olhar estivera baixo em todo o momento, mas, tratei de subi-lo de novo, fixando-o em Shannon. Nos olhos dela.

Eu achava que isso era o que eu tinha de mais pesado. Que era a única coisa que me incomodava, por que, eu ainda tenho pesadelos. Ainda tenho dificuldades em deitar, e dormir como uma pessoa normal. Mas, isso mudou hoje. Descobri que existe algo mais doloroso. O que machuca mais, não é a descoberta em si. É mais... O fato de que talvez, se não fosse por essa aula, eu nunca saberia. — mantive o olhar firme, duro. Como eu deveria reagir a notícia que tinha acabado de ter? E por que Shannon parecia estar com raiva? — Então, se vocês amam alguém, tratem de ser sinceros. Olhem todos os dias nos olhos dessa pessoa, e diga tudo o que deveria dizer. Diga que ama, diga que esta machucado ou machucada, diga. Por que, você pode não ver essa pessoa nunca mais. E quando alguém importante vai embora, não existe nada nem ninguém que possa fazer a dor da perda melhorar. — desviei o olhar do dela, encarando outras pessoas. Ashley, Rebel.

Sai do banco, sem mais nada a dizer. Voltei ao meu lugar, sentando com uma postura impecável. A frieza mantinha-se desde o início de cada palavra que tinha dito, e estava sem prazo para ir embora. Outras histórias foram contadas, uma nova rodada de emoção contendo as pessoas da sala. Menos a mim. O sinal tocou, informando o fim do dia de aulas. Levantei-me, pronta para ir, vendo Rebel prestes a dizer algo, sendo interrompida por Shannon pedindo para que eu ficasse mais um pouco, e que queria conversar. Eu queria ficar a sós com ela? Deixei uma curta respiração soltar-se por meus lábios, acenando de volta para a loira que ia embora. Assim que todos saíram da sala, fiquei frente a frente com minha namorada. Não lhe respondi, mantive o olhar no seu, transbordando seriedade.




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