JACQUES RENÉT, Jean [Finalizada]

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JACQUES RENÉT, Jean [Finalizada]

Mensagem por Jean-Jacques Renét em Ter 15 Set 2015 - 23:28


Jean

─ Nome Completo:
Jean-Jacques Renét.

─ Idade:
25 anos.

─ Escola:
Formado em Newtt McKinley.

─ Grupo:
Adults.

Personalidade:

─ Doutor, não me perturbe com essas coisas. Realmente preciso de um teste psicológico para fazer uma entrevista com a CNN? ─ Minha voz cavalgava o indomável corcel da indignação. ─ Precisa e fará! Senhor Renét, se é tão estável quanto diz qual é o motivo de tamanha insegurança?─ E ali, nos traços daquela pergunta começava de forma quase imperceptível o teste que tanto evitara. Tomei mais um gole do uísque escocês que preenchia o copo quente. ─ Muito bem...─ Estendeu-se uma aparentemente inacabável pausa. ─ Após ler alguns de seus poemas e a maioria de seus livros, notei que a melancolia é um traço evidente que sangra em cada linha que o senhor completa. ─ ─Ou até mesmo antes de completa-las.─ Brinquei arrumando-me na cadeira. ─Por que?─ Respondeu áspero e sem demoras. Todo aquele rodeio me entediava tanto quanto um conto machadiano. Respirei fundo e prossegui. ─Olha Doutor, nem tudo é melancolia, mas tudo parece melancólico.─ Gesticulava de forma calma com ambas as mãos. ─Muitos querem ser livres como um pássaro, livre como seu voo. O pássaro não é livre, ele estará eternamente preso a função específica que é voar. Ele não voa para visitar ocasionalmente sua família em Boston, voa porque precisa voar para sobreviver. O homem precisa trabalhar para sobreviver... As algemas só são distintas, mas possuem a mesma função. Desta forma, prefiro ser livre como a morte, pelo menos nela não necessitaria de nenhum papel específico para estar morto, apenas morreria e morto ficaria, sem precisar trabalhar para estar morto, acordar para estar morto ou morrer para estar morto. Entende?─ Terminei demonstrando o mais profundo tédio que me abatia. Ele sorriu e rabiscou qualquer coisa na folha sobre a prancheta bege que escondia parcialmente sua calça jeans escura. ─Compreendo─ Balbuciou analisando a folha por de trás daqueles óculos largos e grandes. Parecia ter saído de um cartoon. ─Aqui! Próxima pergunta. Como o senhor vê a liderança de forma geral? Se considera líder?─ Meus olhos reviraram-se de forma instintiva e incontrolável, respirei fundo e incomodado me ajeitei novamente na cadeira. ─Bom.─ Bebi mais uma dose do uísque cada vez mais aquecido pelo calor externo do copo. ─A liderança é fundamental, desde a liderança pessoal, passando pela liderança familiar até alcançar a liderança governamental. Me considero líder? Sim, de fato sou líder, e falho no mesmo ponto que todos os outros. Pense bem ─ Tossi brevemente. ─O líder é o parâmetro para os subordinados. O pai e a mãe são os parâmetros dos filhos, os presidentes são parâmetros do povo, o Mc Donalds é parâmetro do Girafas e assim por diante. Mas quem é o parâmetro dos líderes?─ Deixei meus pensamentos fluírem enquanto buscava as palavras certas para prosseguir. ─Pessoa inteligente que é, o doutor poderia pensar que seriam os próprios líderes. Mas se um líder se espelha no outro o ciclo não se torna repetitivo? Não se torna praticamente imutável? Por isso o líder é perdido, por mais personalidade que possua ele está fadado a repetir erros passados ou arriscar em hipóteses presentes. Sim, sou um líder perdido, e justamente por ser perdido me torno líder.─ Ele anotou novamente. Não contei o tempo que permaneci naquela sala insuportavelmente quente, conclui que de fato estava no inferno e deixei meu ateísmo de lado quando invoquei Deus para me tirar dali. Implorei até a um Deus perdido do norte da África, mas como sempre nada acontecia. Só horas massacrantes ali -e ainda tinha um som de goteira que me irritava de uma forma surpreendente.- ─Acabamos!─ Exclamou. Desmoronei relaxado na cadeira, em uma enxurrada de alívio que me lavou a alma. ─Aposto que não lhe caiu um braço por fazer esta entrevista.─ A bola quicou e eu a chutei, com a falta de piedade que me era característica. ─Meu QI decaiu, o que é pior.─ Ele riu parecendo se divertir com o sadismo que lhe alvejou. Anotou novamente. ─Quer saber o resultado?─ ─Não!─ Respondi rápido e levantando prontamente para ir embora. ─Mas vai saber.─ Aquela frase pesou tanto que me empurrou novamente na cadeira, fazendo meu corpo literalmente desabar sobre ela. Ele me estendeu uma segunda prancheta que eu nem sequer sabia da existência, ou havia notado que ele estava utilizando. Agarrei-a firme e passei a ler; narcisista, sintomas depressivos, sádico, tendências impulsivas (provável sociopatia). Inteligente, porém, seletivo com os objetos de aplicação dessa característica. Ria a cada linha que lia, era patético. Humor ácido e negro (Algo também marcante nas suas obras). Poderia ter continuado quando vi os pontos lógico, sem escrúpulos e sem senso ético. No entanto, era tanta merda jogada ao vendo que me foi digno deixar que ela atingisse apenas Christopher, o psicólogo que me enjaulou durante aquele tempo. ─ Avise a sua emissora que eu não faço a mínima questão de gravar com ela. Devolverei o dinheiro já recebido e vou usar o tempo que perderia respondendo perguntas fúteis escrevendo algo útil.─ Levantei-me e sai, levando comigo a garrafa de uísque que serviria como prêmio de sobrevivência naquela selva ilógica na qual adentrei por uma tarde. Tive certeza que ele deve ter acrescentado "No entanto, uma ótima pessoa" como adendo naquela folha barata que estava utilizando.
História:

─Lucy, me devolva isso antes que eu lhe parta os dentes.─ Exclamou Rose, minha irmã mais nova. Éramos em torno de três irmãos e morávamos em um espaço onde nem um homem trivial viveria com dignidade. Apesar de tudo, era divertido. A onomatopeia tomou conta da sala quando a mão destra de Rose se chocou contra face de nossa irmã. Deitado no sofá tudo o que me restou foi rir. E ri. Aquilo soou tão maligno que mesmo para a minha inocência infantil, hoje não posso negar a crueldade naquele ato. Nosso pai passavam a maioria do tempo ocupado, e quando estava em casa buscava seu refúgio nas drogas e álcool. Em Paris as coisas não precisavam correr como planejado, não para quem tinha aquele pífio padrão de vida. Qualquer moeda era lucro, qualquer restrição de roupas era o sexo mais porco e repulsivo possível. Existiam duas Paris, duas cidades luz, mas na vida que levávamos nem mesmo a fogueira nos aquecia ou iluminava. Abusos? Não, não, nunca sofri, meu pai sempre almejou algo mais físico, algo realmente violento. Por vezes adentrava bêbado pela porta recém arrombada e com a cinta em mãos batia em qualquer um que ousasse lhe obstruir o caminho. Penso que isso passou a ocorrer após a irônica inversão de papéis, certamente Jennifer, aquele pedaço de carne putrefato que me deu a luz, foi comprar qualquer maço de cigarros baratos -ou uma bucha singela de cocaína- e nunca mais retornou. Nunca soube o que se passava pela cabeça daquele homem, Charles era um sujeito calmo e pacato quando estava sóbrio, porém, seus fantasmas pareciam lhe arrastar para o inferno da reflexão a cada segundo que se recordava da mulher que o abandonou e dos três pesos que carregava no bolso. Tinha sete anos, não, espere, tinha exatos oito anos... Dias vinte e três de julho, meu aniversário. Charles trancou-se no quarto com seus três filhos. Nos deu algo para comer, aquilo era de certa forma nojento, uma mistura de feijão com arroz do tipo que eu jamais comeria, e de fato não comi. Se enforcou bem na nossa frente e morreu com um sorriso no rosto, parecia o demônio agradecendo o suicídio e as duas garotas que lhe serviu de banquete através de envenenamento. Foram os cinco dias mais longos que vivi, com sede e com fome, trancado em um quarto com três corpos e nenhuma esperança.

O telefone tocou e me despertou do sono profundo. Minha visão embaçada tentava distinguir entre o três ou o seis no relógio digital sobre o criado mudo. Flexionei uma corrente muscular que moveu parcialmente meu corpo fazendo as garrafas sobre ele caírem junto ao chão. ─ Alô?!─ Exclamei levando o smartphone até o rosto. Aquele quarto estava repugnante. Meu corpo encontrava-se inerte sobre a poltrona em seu centro. Garrafas, livros e desorganização me orbitavam de uma forma circular, mostrando que os dias passaram e estive ali sem nota-los. Dois? Quatro? Não me recordo. Minha cabeça latejava e entrou em crise quando aquela voz sedutora falou ao telefone. ─ Como está o andamento do livro? ─ Ah! Ela sabia provocar, me excitava apenas em imaginar a forma que sua língua se movia em cada sílaba cantada. ─ Uma merda! Você sabe que horas são? ─ Disse confuso enquanto esfregava os olhos e voltava a olhar o relógio. ─ Me explica o motivo de ser acordado três horas da manhã. ─ De praxe uma pontada me abalou o peito, senti a respiração ofegante voltar vagarosamente ao seu estado regular. Sorri e levantei-me enquanto a escutava. ─ Jean, você possui dezenove anos e é o escritor mais renomado da cidade. Mesmo assim insiste em viver em um quarto de hotel qualquer, recluso do mundo. ─ Apanhei uma garrafa dentro da geladeira e desfilei nu até a janela, observando as luzes da cidade. ─Você já observou as luzes da cidade?─ Perguntei de forma a corta-la em seu sermão. ─Já!─ Exclamou seca e em uma busca inconsciente para a resposta concreta daquela pergunta. ─Elas passam uma noite inteira esperando para serem apagadas, brilham de forma comum enquanto são admiradas como salvações para a escuridão. Eu sou como essas luzes, escrevo de forma normal enquanto espero ser apagado.─ Dei um gole e apreciei o silêncio. ─Então Dona Morte, ou você aperta esse interruptor e apaga de uma vez essa luz que produzo, ou você não me enche mais a porra do saco. Obrigado!─ Desliguei o telefone e o joguei pela janela. Nessa época, ainda novo e um pobre alternativo incompreendido e perdido em seus traumas de infância, eu já era localmente renomado. Dono de dois romances bem vendidos que tratavam lendas urbanas da cidade -as pessoas amam o terror alheio-, assim como possuía poemas hoje vistos como obras de arte. A procura dos editores por mais material era incansável, ainda era novo e tinha muito dinheiro para produzir àqueles suínos que amavam mamar o leite monetário do sistema. Não ligava, escrevia por puro sentimento de ódio e tristeza, se ganhasse algo para beber e continuar triste e insubmisso estava ótimo.

Aquele homem era engraçado, me lembrava muito um dos desenhos que assisti aquela semana... Merda! Qual era o nome? Não adianta, bebi demais para recordar agora. Era evidentemente inglês, porte atlético e cortês, cabelos loiros e olhos verdes, o tipo de sujeito que receberia sexo oral gratuito de qualquer meretriz que abordasse. Seu pé abriu de forma abrupta a porta e então entrou, como um herói reluzente contra a luz, resgatando-me em meus frágeis oito e sofridos anos, abandonando para trás os corpos e começando a busca pela exclusão daquele passado. Da delegacia fui encaminhado ao orfanato, estranho e franzino não seria adotado nem por um casal de roedores. Profecia bem sucedida. E lá, em meio ao preconceito sofrido nos quartos e as vezes trancado dentro de armários úmidos e escuros, me fiz poeta. Sim, tudo começou com poemas sem nem antes ler algum. Frases soltas de forma construtiva atrás da porta do banheiro trancada. Taxado como homossexual apesar de não ser, evitei que descobrissem os textos e esboços que produzia, o medo do preconceito crescer era real. E em meio aquela ríspida formação criei meu caráter de maneira que me protegesse da crueldade. Me tornei tão cruel quanto. Caótico é a palavra.

─Você me lembra a imagem que tinha de Ártemis quando era criança─ Pensei isolado quando a vi pela primeira vez. Os boatos, rumores e histórias sobre ela eram de fato verdades. Mal ela sabia mas sua fama se espalhou tanto quanto as pragas do Egito -afinal fama sempre é a maior delas-. ─Ela tem sorte de ter perdido a memória, queria eu ter esquecido aquela comida árabe horrível que me obriguei a comer ontem.─ Mentalizei novamente. Cigarro recentemente acesso entre os lábios. Estávamos em Newtt McKinley, a mais afamada escolas de artes do país. Lá estudei artes cênicas e literatura. Lá vi pela primeira vez aquela que esperava ser um anjo caído -anjos de fato angelicais tendem a ser tediosos.- Harleen Barrett, estudante nova no meu terceiro e penúltimo ano de internato. Suas feições se encaixavam em meus padrões, porém, aquela casca podre que alimentava meu espírito inibiu qualquer aproximação desejada. Mas rendeu-me bons poemas, ótimos e melancólicos poemas. Nas entranhas de meu ser penso que alimento a negatividade para sustentar a base inspiradora da escrita. De fato é patético mas necessário. Não vou mentir falando que fiz o perfil nerd psicótico e segui a garota em todos os seus passos -e que pernas ela tinha, enfim-. Nunca fui correto muito menos fanático, apenas desenvolvi uma admiração voluntária por ela, não beirava uma paixão retraída muito menos um querer incondicional, apenas um deleite apreciativo de prazer apenas em olha-la ocasionalmente, admira-la e em algumas ocasiões inspirar-me na escrita.

O tempo é como vento, rápido, capaz de machucar mas acima de tudo tendencioso a mudanças. Histórias realmente hilárias se passaram nas madrugadas da vida, caídas e recaídas no álcool, pessimismo e suicídio em minhas obras. Parecia me por nelas, em cada perfil criado, em cada personagem narrado, em cada cenário descrito. Posso ser Jean, posso ser Charles, posso ser ambos como posso ser ninguém, nem mesmo eu imagino quem seja. E é sobre isso que escrevo e alimento esta já citada praga egípcia, perante a qual interpreto magnificamente Júlio César, ou talvez não seja também Júlio. Enfim, apesar de novo sustento uma pequena fortuna vindas de meus livros e suas adaptações, muitas compradas para serem gravadas em Hollywood, tantas outras emprestadas ao teatro. Se pensarmos que o dinheiro é o símbolo materializado do tempo, que trocamos tempo por um papel que vale a vida de um continente, então minha prostituta preferida, a Morte, pode me levar para o seu confinado quarto de hotel e matar-me prazerosamente, pois morreria feliz sabendo que troquei meu tempo pela cultura literária, e doei a maioria dessa figura material feita de escambo. Não sou Jean, sou um só ideal em todos nós.
"Dinheiro é uma porcentagem do seu tempo gasto em prol de pessoas inúteis".

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